2012
a velha história:

preciso voltar a produzir.
1102

Sem título - Collin LaFleche
Não sei qual motivo da situação geral sempre ser estranha durante os finais de ano. Devido ao blues natalino refletido em versões em samba e pagodinho paulista, profanando caixas de som de supermercados e shopping centers? Devido às luzes que enfeitam a nossa tosca paisagem e ao curioso enfeite natalino em formato de bigode no alto de um prédio da Av. Aguanambi? Se é do motivo dado às crises e pausas para reflexão sobre o devir, o si e o próximo ocasionadas pelo desalento pré-virada, algo que mora na mesma casa da razão do medo do fim do mundo?
Não faço a menor ideia.
* * *
Tenho uma grande amiga distante quilômetros e quilômetros, emburacada em um mestrado e em uma difícil e épica jornada individual. Outra, cria do bando e parte de uma corja que se auto-intitula e é proclamada como ca-fa-jes-tes, decide rumar ao Sul para buscar o rastro da própria essência dispersa no mundo.
Como disse, as coisas sempre ficam estranhas no fim do ano. Não faço ideia do motivo. Frisos meus: talvez algo que mora no âmago de um sentimento demasiadamente humano, o Temor ao Fim do Mundo, ou algo que o valha. E, da mesma casta que este, a Sensação Vazia do Próximo Ano.
Se procurasse ter religião, escolheria Jogos de Azar, como sempre venho fazendo nestes vinte e dois finais de ano em suspensão.
Criolo Doido
Outro ângulo do beijo em Vancouver
A imagem acima correu a manhã de hoje por tweets e sites noticiosos como retrato romântico de um casal se beijando durante os protestos que estouraram após a derrota lavada do time canadense Vancouver Canucks de 4 a 0 contra o norte americano Boston Bruins, em partida pela Stanley Cup – um dos principais e mais tradicionais campeonatos de hockey no gelo da América do Norte.
O fotojornlaista Richard Lam registrou a cena. “Havia essas duas pessoas no chão da rua vazia. Inicialmente eu pensei que uma delas estivesse ferida“, disse em entrevista ao britânico The Guardian. Fez algumas fotos da cena e continuou na cobertura fotográfica dos protestos, e só no momento quando foi escolher as imagens junto do editor, foi atentar para o que fotografou. “Ele (o editor) percebeu que aquelas duas pessoas não estavam feridas, mas se beijando“, contou Lam.
Encarada por muitos como o início de um romance em um lugar inusitado, a imagem foi amplamente divulgada pelo twitter, facebook e sites de notícia. Uma testemunha, entretanto, contou ao jornal Vancouver Sun que o casal na verdade tinha sido agredido pelos policiais. Além da confirmação de que Alex e Scott (o casal da foto) namoravam há pelo menos seis meses, outro ângulo da cena abriu margem para outras explicações para o fato: talvez não fosse caso de encontro do amor da sua vida num protesto, mas simplesmente um sujeito tentando confortar a própria namorada sofrendo após agressão da polícia.
Até o momento, ninguém soube dizer se houve ou não omissão do fotojornalista em contar a história direito. Porém o balanço da polícia de Vancouver apresentou dados mais precisos: 150 feridos, 100 manifestantes presos, 15 carros incendiados (incluindo duas viaturas policiais), e saques à lojas de departamento. “Esse pessoal veio equipado com máscaras, óculos e gasolina. Eles tinham um plano“, declarou Jim Chu, chefe de polícia da capital, que sustenta relações do acontecimento com os protestos ocorridos um dia depois da abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno de 2010.
Os dias ultimamente:
cartazes, livros, revistas, anúncios…
Só não vale curtir sem antes ler
A desconfiança sempre será uma boa postura a ser adotada frente ao novo, defendo. As tendências de consumo, as cartilhas de relacionamento e o fetichismo esquizoide a cada lançamento tecnológico: tudo isso não é novidade alguma. No entanto, com o mais que presente estilo de vida 2.0 que nos engole a cada login em rede social às 8h da manhã, compartilho dois textos que nadam contra a corrente do oba-oba de rede social.
“Se uma pessoa dedica sua existência a ser curtível, entretanto, e se adota qualquer máscara bacana que se mostre necessária para atingir tal fim, isso sugere alguém que perdeu a esperança de ser curtido por aquilo que realmente é. E, se formos bem sucedidos na tentativa de manipular os outros e fazê-los nos curtir, será difícil não sentir, em algum nível, um verdadeiro desprezo por tais pessoas, pois caíram no nosso embuste.”
“Nossas vidas parecem muito mais interessantes quando são filtradas pela interface sexy do Facebook. Somos os astros de nossos próprios filmes, fotografamos incessantemente a nós mesmos, clicamos o mouse e uma máquina confirma a sensação de que estamos no comando. E, já que nossa tecnologia não passa de uma extensão de nós mesmos, não precisamos desprezar seus traços manipuladores como faríamos no caso de pessoas reais. Trata-se de um ciclo interminável. Curtimos o espelho e o espelho nos curte. Ser amigo de uma pessoa significa apenas incluí-la na sua lista particular de espelhos elogiosos.”
Jonathan Franzen ensaia sobre o risco do amor como consumo em tempos de Facebook.
“Devemos então resistir ao Facebook? Nele, tudo é reduzido à escala do seu fundador. É azul porque, por acaso, Zuckerberg sofre de um daltonismo que não distingue o verde do vermelho. “O azul é a cor mais bem definida para mim – enxergo todos os tons de azul.” Nele, existe a ação poke, de “cutucar”, porque é o mesmo gesto que alguns rapazes tímidos usam para chamar a atenção das moças que eles têm medo de abordar com palavras. Concentra-se em torno de informações triviais porque, para Mark Zuckerberg, a troca de trivialidades pessoais é o que constitui a “amizade”. Estávamos destinados a começar uma vida on-line, o que prometia ser extraordinário. Mas que tipo de vida? Contemple seu mural do Facebook de uma certa distância: de repente não começa a ficar meio ridículo que a sua vida esteja nesse formato?”
“Talvez tudo acabe transformado numa versão apenas intensificada da internet em que eu já vivo, onde anúncios de serviços dentários me perseguem ceca e meca, e toda hora sou instada a comprar meus próprios livros. Ou talvez toda a internet fique simplesmenteparecida com o Facebook: falsamente alegre, falsamente amistosa, voltada principalmente para a autopromoção e engenhosamente dissimulada.”
Zadie Smith, entre um paralelo e outro sobre o Zuckerberg real e o Zuckerberg de A Rede Social, atenta a como nós pausterizamos as nossas próprias representações na rede.
Nem Amy Winehouse, nem a tal da Lady Gaga…
… quem começou com essa pouca vergonha de ser celebridade fotografada em situação desagradável foi Henri de Toulouse-Lautrec, o ”pai do poster publicitário”, nos idos 1898.
Encontrado na edição de maio de 2011 do British Journal of Photography.










