01/07/2009...02:46

S.

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A novidade é boa: Fortaleza está com cada vez mais gente usando twitter. Outra novidade legal: veículos de comunicação locais estão no twitter. Ótimo…
O maior barato da ferramenta é justamente o live-blogging: o fato aconteceu, pá!, 140 caracteres e menos de um minuto depois e lá foi você publicar. E você fura a TV. E fura o rádio. E fura os jornais de amanhã – que ainda não aprenderam que aprofundar os fatos gera mais retorno.

Certo.

Agora vamos às últimas e ao que interessa neste post.

Nessa semana (que ainda nem acabou) tivemos duas notícias na imprensa local relacionadas a S.
A primeira foi dada no domingo. Uma mulher tentou S do prédio do Instituto Doutor José Frota (IJF). Eliomar, Jangadeiro Online e alguns jornalistas no twitter noticiaram o fato. Sorte que uma equipe do Corpo de Bombeiros conseguiu salvar a moça que sofria de depressão. Final feliz.
Na segunda-feira seguinte, o programa Cidade 190, da TV Cidade, noticiava o fato como exclusivo. Nem preciso comentar que foi estranho ver o selo de exclusividade do Canal 8 ao lado de um microfone da TV Jangadeiro em uma parte da matéria. Mais tarde, o Barra Pesada também noticiou o fato, seguido de um comentário do Nonato Albuquerque, alertando os perigos da depressão e motivando as pessoas a terem mais amor à vida e aos outros.

No dia fiquei pensativo, cá com meus botões, delirando caso a mulher realmente tivesse pulado. Se houvesse tragédia, aquilo iria ser noticiado pra quê?
Lembrei também do twitter. Eu sei que soltar um furo jornalístico é algo bom: mostra exclusividade, dinamismo e competência para os chefes e, principalmente, para o público. Mas, ora, com a possibilidade de se postar os fatos quase que simultaneamente ao tempo que eles acontecem, será mesmo que nós, produtores de conteúdo, estamos discutindo a notícia e nosso dever de publicá-la antes do furo “jornalístico” dos 140 caracteres?

O mestre e jornalista de minha grande admiração, Agostinho Gósson, falou, em uma das aulas lá no curso de Jornalismo da UFC: evitem ao máximo noticiar o S. Falou isso depois de tirar o óculos e repousá-lo sobre a mesa, como sempre tem costume de fazer quando falava algo mais sério ou que merecesse maior atenção. Em linhas claras: publicar uma coisa dessas pode funcionar na cabeça das pessoas como um aviso do tipo “olha só pessoal, o mundo está uma bosta; se você sentir vontade de fazer isso, pode tentar ok?”. Não sei se isto é verdade ou não, mas particularmente prefiro seguir o conselho do mestre.

Nesta terça-feira, uma pessoa cometeu S em um shopping de Fortaleza. Dois programas policiais locais foram cobrir o fato. Outro preferiu não ir. Havia gente que fotografou a triste cena e queria vender as fotos para alguns veículos de comunicação. E ainda há gente que publicou o fato em blogs.

A vocês que levaram o fato adiante achando o suprasumo do Jornalismo nisso, meus parabéns, campeões: vocês são os novos donos da mídia.

Agora resta esperar que os jornais de amanhã não inventem de noticiar a tragédia ocorrida.

3 Comentários

  • Ju Diógenes

    boa, yuresco. particularmente, acho que noticiar S. é, além de amoral, algo sem propósito de ser divulgado. mas uma amiga minha, estudante de psicologia, acha que os meios de comunicação poderiam informar sobre os S’s como uma forma de não omitir a realidade da questão, abrir mesmo para debate, deixar claro que acontece todo tempo – até com o intuito de evitar que se acumule como um tabu, entende?
    mas isso aqui pode ir para a lista de pautas prorrogadas à mesa de bar!
    besos

  • Não é só uma recomendação do Agostinho. O Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros diz lá no artigo 11 que

    “O jornalista não pode divulgar informações:
    II – de caráter mórbido, sensacionalista ou contrário aos valores humanos, especialmente em cobertura de crimes e acidentes”

    Tá bem claro qual deve ser a conduta do jornalista nessas situações, não?


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